19 Julho 2009

O deus de Kaká

Existe um deus desocupado que, por não ter coisa melhor a fazer, decidiu ser torcedor do Real Madri. Um deus irresponsável que, no meio de uma crise financeira internacional devastadora, fez aparecer, por milagre, uma fortuna no cofre do seu clube para contratar um jogador de futebol de sua preferência. Não satisfeito, e vaidoso de sua divindade, mandou a mulher do jogador abrir uma igreja na Espanha para louvar os seus feitos em favor dos ricos e descolados deste e do outro mundo.
Pelo menos é isto o que nos deixa imaginando o depoimento de Caroline Celico, mulher do jogador Kaká, recentemente contratado pelo time espanhol. Para Caroline, o milagre é evidente: “Como pode alguém no meio da crise ter dinheiro? Deus colocou esse dinheiro ma mão do Real Madri para contratar o Kaká. Nós vamos abrir uma igreja lá. Existem vidas que têm que ouvir essa palavra”.
A igreja em pauta é a Renascer em Cristo, propriedade da bispa Sônia e de seu marido Estevam, aqueles mesmos que foram em cana e estão proibidos de sair dos Estados Unidos por tentarem entrar lá com um punhado de dólares não declarados. Devem ter achado sacrilégio declarar um presente tão singelo do deus lá deles.
Eu já devia não me espantar mais com essas picaretagens que, aliás, não são privilégio de nenhuma dessas seitas em particular. Quem se der ao trabalho de assistir ao vídeo vai constatar facilmente que a mocinha não acredita em uma vírgula do que está falando. O que me espanta mesmo é que exista gente crédula o suficiente para se deixar encantar por um discurso ôco de qualquer sustância, seja divina ou profana.
Não é que eu queira tirar o direito de Kaká e sua doce Carolina acreditarem em um deus particular que os protege e enriquece. O que me incomoda é qualquer desses descolados usar o seu brilho pessoal para nos convencer que são os escolhidos dos deuses. E que nós, que ralamos ao rés dos chão, só ascenderemos aos ouros celestes se abrirmos mão de uma parte significativa do fruto do nosso suor para abastecer a conta bancária dos arautos dessa divindade boçal e alienada do sofrimento dos povos.

12 Julho 2009

Parto natural


À uma e meia da madrugada, entramos em trabalho de parto. Entramos eu e Glória, os avós, Flávio, o marido e, last but not the least, Ana Lia, que bateu no nosso quarto e avisou com toda naturalidade: minha bolsa rompeu.
Muito naturalmente, chispamos para a maternidade, pois nossas contrações já atacavam em menos de cinco minutos de intervalo. Parteira e pediatra a postos, decidiu-se que o parto seria ali mesmo, no quarto. Nada mais natural, portanto, que eu me retirasse, pois tinha clara consciência da minha inutilidade naquele momento.
Talvez essa tenha sido a decisão mais errada da minha vida. Fiquei andando feito um bicho enjaulado pelos corredores, ouvindo os gritos de minha filha e imaginando todas as torturas que lhe estavam sendo infligidas por aquele bando de perversos. Por vários momentos estive a ponto de irromper no quarto de arma na mão e gritar: isto é um seqüestro. Todos para a sala de cirurgia.
Mas de repente fez-se um silêncio logo quebrado por um vagido apaziguador. Foram-se os monstros e em seus lugares estavam uma médica perfeita, uma pediatra competente, uma avó em lágrimas, um pai em transe e um mãe em exausta beatitude.
Foi a primeira vez que testemunhei auditivamente um parto natural. Pelo que sofri, passei a achar que não existe nada mais natural do que uma boa cesariana. Mas todas dizem que é bem melhor a recuperação rápida do que a chateação pós-cirúrgica. Não tenho como optar.
Natural mesmo é o nosso resguardo. Há uma tendência generalizada a ficar na cama, voltar depressa pra casa, nadar em lágrimas a qualquer pretexto. Natural mesmo é o clima amoroso que se instala em toda a casa contaminando outros endereços em volta do mundo. Natural, muito natural é que eu esteja aqui tentando disfarçar um sentimento transbordante que me causa a condição de avô de Anita.

06 Julho 2009

Mãos dadas


Deram-se as mãos.
E achando pouco, os dois deram-se as bocas.

Queriam mais.
Então, deram-se os corpos.

E muito mais tiveram para dar
assim presenteados um ao outro.


Imagem obtida em: cgi.ebay.com.sg

30 Junho 2009

A hora e a vez



Uma eternidade se concentra nesses poucos segundos. Ele fixa o olhar na bola como se quisesse hipnotizá-la, antes de colocá-la no gramado. Os gestos são precisos. Todos os músculos de prontidão. Depois, os olhos miram o lugar por onde a bola fatalmente deveria entrar. Nenhuma dúvida em seu rosto. Nenhuma hesitação. Estava de frente do gol como um toureiro de cara com o touro.

Nenhum jornal publicou a foto do momento mais dramático da Copa das Confederações. Já se passavam 36 minutos do segundo tempo de Brasil e África do Sul quando Daniel Alves entrou em campo. Cinco minutos depois, o lateral direito deixava sua marca no placar que definiu a partida.

Depois chorou, correu como criança e levou cartão amarelo por ter levantado a camisa para mostrar o nome do filho recém nascido tatuado no peito. Tudo isso foi registrado e publicado nos jornais e nas revistas. Repetido pela televisão. Mas foi aquele ritual fechado e compacto que antecedeu o gol que ficou marcado na minha memória. A cena definitiva de um homem que soube fazer sua vez e sua hora.

21 Junho 2009

Os mistérios do mundo


Vinha dirigindo meio distraído quando bati de frente com a faixa exibida sobre o muro da casa de esquina: “Colocamos mega-hair no nó italiano e na queratina com hora marcada”. Minha pobre capacidade hermenêutica sentiu-se desafiada por aquele enigma suburbano.
Pondo em prática o método desconstrutivo, comecei por separar o texto em pedaços conhecidos e desconhecidos. Meus parcos conhecimentos de inglês permitiram deduzir que o termo mega-hair devia se referir a uma cabeleira farta, daquelas dos rastafaris ou das louras adventícias.

Hora marcada, por sua vez, não deveria designar nada de novo além daquele velho procedimento há muito erradicado dos consultórios médicos. Restaram apenas, portanto, o nó italiano e a queratina.

Houve um tempo em que os italianos eram desbravadores de mares, tal como Colombo e Vespuci. Quem sabe o tal nó italiano era alguma espécie de nó de marinheiro? Quanto à queratina, o dicionário não ajuda muito. Remete a ceratina, que vem a ser “uma proteína fibrosa e pouco hidrossolúvel, comum na epiderme, constituinte principal do cabelo, unhas, pêlos, tecidos córneos... etc.”

De quase nada adiantou recorrer às mulheres da casa, pois são pouco dadas a salões de beleza, contentando-se com um ritual semanal de manicure ali mesmo no terraço. Aproveitei um desses momentos para me livrar definitivamente do meu analfabetismo capilar. Mira, a moça das tesouras e alicates, não soube dizer muito bem do que se tratava. Nem mesmo um telefonema para o próprio salão de beleza esclareceu muita coisa. Soubemos apenas que a coisa era cara. Cento e cinqüenta reais apenas o nó italiano e duzentos com a aplicação da queratina. O preço dos cabelos a ser implantados não estava incluído.

Saí do terraço chateado. O enigma continuava praticamente intacto. Entrei no escritório, liguei o computador e acessei o google. Foi só escrever “megahair nó italiano queratina”, e pronto. Todo o mistério do mundo estava resolvido em poucos segundos. Não vale nem a pena contar o que é. Quem quiser que vá lá ver.

14 Junho 2009

Janelas de apartamento


Podem me acusar de voyeurismo, mas tem uma coisa que gosto muito de fazer: olhar janela de apartamento. Gosto de imaginar a vida daquelas pessoas, pensar como foi ou será o seu dia, o que estão comendo à mesa, o que conversam no terraço.
Em frente a um hotel em que me hospedava com frequência, tinha um prédio de pequenos apartamentos, desses de quarto e sala. Bem em frente ao meu quarto, morava uma mulher que não parava quieta. Ia da sala para o quarto, voltava, perdia-se lá por dentro para aparecer de novo, como um bicho na jaula. E minha curiosidade turbinava, pois eu só conseguia vê-la da cintura pra baixo. Tinha pena dela, mesmo sem nunca saber quem era.

Para mim, a melhor hora de espiar apartamentos é no finzinho da tarde. Me dá uma melancolia, uma vontade de ir esperar as pessoas que vão chegar do trabalho ou da escola, perguntar como foi o dia, ver quem chega com o pão para o jantar. Também gostaria de chegar de repente na porta dos que moram sozinhos, tocar a campainha e entrar para uma visita rápida. Talvez ficando para um café.

Se quiserem ainda me acusar de voyeur, saibam que estou muito bem acompanhado neste vício. Vejam, por exemplo, a letra da música abaixo, de autoria de Renato Rocha, cantada pelo MPB-4. É uma coisa linda. Assim que conseguir baixar a melodia, vou querer repartir aqui com vocês.


Janela de Apartamento

Homem entrando calorento afrouxando o colarinho
A mulher vem lá de dentro: um abraço um beijinho.
Janela de apartamento parece estória em quadrinhos

Lá naquela um cachorrinho, acho que fica sozinho,
a maior parte do tempo
Do lado mora um velhinho que nunca recebe gente
Acho que vive somente pra cuidar dos passarinhos.

O jantar está saindo ali, naquele do centro.
Todos comendo assistindo a novela do momento.
Em cima do cachorinho vagou um a pouco tempo.
Ali morava um brotinho que pra todos os vizinhos
era um acontecimento.
Saudades daquele tempo, aluga-se apartamento.

O homem do colarinho foi na janela um momento.
A mulher foi lá pra dentro, o casal tem um filhinho.
E o velhote sonolento, que dorme com os passarinhos,
fecha a cortina um pouquinho, tira a gaiola do vento,
apaga a luz do aposento.
Janela de apartamento parece estória em quadrinhos.


Ilustração: Óleo de Jean François Millet

Luvas



Não se pode chamar de perversão. Nem chega mesmo a ser um vício. O que André tem pode ser chamado de costume. André tem o costume de usar luvas.
Não é sempre, nem é em todo lugar. Tampouco é sempre a mesma luva. André tem uma luva para cada ocasião.
Quando Ana Beatriz viu André pela primeira vez, ele tomava sorvete de coco com luvas brancas. Ficou fascinada com a maneira elegante e precisa com que ele segurava a taça, manuseava a colher. Mas logo lhe bateu uma espécie de remorso. E se ele tivesse alguma doença de pele, coitado. Afastou-se olhando sorrateira para André e aquelas luvas não saíram de sua cabeça por uma semana.
Uma semana foi o tempo que Ana Beatriz levou para reencontrar André sozinho numa mesa de bar. Dessa vez ele usava luvas amarelas e tomava cerveja. Os olhares dos dois se cruzaram e ela não teve forças para recusar o convite de André para sentar.
Era atração, mas era muito mais curiosidade sobre as luvas que arrastaram Ana Beatriz à mesa. Sentou já com os olhos fixos nas mãos do rapaz. Ele notou e logo cuidou de explicar. Tinha essa mania. Usava luvas da cor mais próxima do que iria comer ou beber. Nada demais. Um amigo psicanalista garantira não ser doença.
A conversa mudou de rumo, pulou de André para a moça, seus gostos, suas manias, sua vida mais íntima, seu estado civil. Viúva. Ana Beatriz era viúva há quase um ano. Desde esse tempo, nenhum homem tocara seu corpo. Mas de um jeito meio confuso, insinuou que já era tempo de aliviar o luto fechado.
Não tinha lugar mais seguro do que o apartamento de André. Prédio pequeno, sem porteiro, vizinhança calma que se recolhe cedo. Ana Beatriz subia as escadas lentamente, a mão esquerda enlaçada com força à luva de André.
Ela esperou um tempo no sofá da sala enquanto ele dava um jeito rápido no quarto. Depois ele veio apanhá-la com as mãos descalças, deslizando com ela pelo corredor. Sentados na beira da cama, hesitantes sobre o que fazer, a moça sussurra meio rouca: vai com calma, André. Lembre-se que sou viúva. O rapaz então se levantou, levou um pouco tempo mexendo na porta do meio do guarda-roupa e virou-se mostrando as mãos. Beatriz saiu correndo do quarto quando viu as mãos de André vestidas com luvas de renda negra, um curto babado à altura dos punhos abotoados com pequenas pérolas.

Clube do Conto da Parahyba

07 Junho 2009

O trabalho da alma



A alma mora no fundo do corpo. Neste sentido, ela é muito mais misteriosa do que a alma das religiões ou dos medos noturnos das crianças.
Parte da memória de tudo o que nos entra pelos olhos, pela boca, pele, ventas e ouvidos, permanece num canto obscuro do ser, reduzida a enigmas que se movem desordenadamente, apelando para voltar ao sentido que perderam ao penetrar no nosso corpo.
Situada numa região de fronteira entre o corpo e a linguagem, a alma é a operária que dá sentido aos nossos afetos. É o local onde se dá a superação que nos tira da confusão e nos lança no terreno da solidariedade. Pelo trabalho da alma, tudo o que nos invade pelos sentidos é devolvido ao mundo como linguagem.
Vista assim, a alma é o que nos torna humanos, fabricando a linguagem e nos dando a possibilidade de comunicação. Daí, a sua imortalidade. Pois a linguagem antecede a nossa entrada no mundo. E quando desaparecemos, algo do que transformamos em linguagem irá habitar como enigma o terreno obscuro dos afetos dos nossos descendentes, exigindo de suas almas a continuidade do eterno trabalho de nossa transformação em nós mesmos.

Ilustração: Óleo sobre tela de Carlos Godinho
Obtida em: www.galeriaaberta.com

28 Maio 2009

Pesar














Pesamos todos mais 21 gramas.
É o peso da alma do amigo
que arrastamos
toneladamente.

Falta paquidérmica
densa
insustentável.


Ronaldo Monte

Imagem obtida em


25 Maio 2009

Delicado

Se me pedissem uma palavra para definir Barreto, responderia sem hesitar: delicadeza. Esta era uma qualidade que vinha antes de todas as outras. Ele podia ser crítico, irônico, até mesmo gozador. Mas tudo isto revestido com a embalagem da delicadeza.
Se o leitor quiser saber exatamente do que estou falando, leia um livro de Barreto. Esses que ele assina como Geraldo Maciel. Pegue um conto, que seja. Logo se dará conta de que aquilo é fruto de um delicado trabalho de ouriversaria, ouro e prata engastados de palavras preciosas, mas tudo muito bem disfarçado em simplicidade e clareza. Tente imitar, como eu tentei, um mínimo parágrafo e saberá como é difícil e exaustivo o resultado.
Até para morrer, Barreto foi delicado. Nada de períodos longos de internamento, promessas ilusórias de melhora. Foi ao encontro do Clube do Conto, no sábado, sem dar a menor bandeira. Acordou no outro dia bem disposto e saiu para cuidar da vida. Foi ali, morreu e pronto. Não obrigou ninguém a cancelar compromissos, adiar ocupações, pois escolheu para partir numa manhã chuvosa de domingo, em que não dava praia. Com isso, não estragou o programa de ninguém.
Foi uma pena Barreto ter faltado ao seu velório. Ia ficar feliz com a turma que se reuniu, incrédula, para ter certeza de que a notícia não era brincadeira de mau gosto. Tinha muita gente boa, gente querida. Mas faltava alguém imprescindível. Aquele que saberia dizer as palavras exatas para a ocasião. Nos falaria de perda, de dor e de ausência. Mas falaria muito delicadamente.







Inveja

Tenho inveja de quem escreve melhor do que eu. Vejam, por exemplo, isto que Geraldo Maciel escreveu: “Uma cova comum tinha seus nove palmos de comprimento, quatro de largura e os sagrados sete palmos de fundura. O que passasse disto, ou seja, sendo o finado muito gordo ou muito alto, requeria uma taxa extra, pois, mesmo sendo a morte uma coisa meio sagrada, cavar covas cansa muito e deixa o corpo tão quebrado quanto trabalhar na agricultura ou carregar fardos às costas”. É um trecho do conto “O coveiro”, que está no seu último livro, O concertista e a concertina. Não é de dar inveja em qualquer um?Para quem não sabe, Geraldo Maciel é o mesmo camarada que muita gente conhece como Barreto. No começo se faz uma certa confusão, mas a gente termina se acostumando. Ele tem outra doença, além de ser contista e ter dois nomes: teima em ser dono de uma editora, a Manufatura, por onde editou o seu livro. Não é de hoje que tenho inveja do texto de Geraldo Maciel. É desde o seu primeiro livro de contos, Aquelas criaturas tão estranhas, em que ele gasta quase uma página com um tiro de clavinote, descrevendo o trajeto do material expelido desde a boca da arma até se alojar nas vísceras da vítima. Fui tentar imitar a técnica descrevendo um soco se aproximando em câmara lenta da cara de um sujeito. Não consegui passar das cinco linhas. Quem quiser roer de inveja como eu, leia qualquer coisa de Geraldo Maciel. Mas leia de preferência este novo livro. São textos maduros, de boa carpintaria. A história que dá título ao livro dá vontade de chorar. Mas emoção mesmo eu senti com a sina do Boca, cantor de corpo disforme mas com uma voz capaz de criar amores e reacender velhas paixões. É livro de se ler de um fôlego só e ficar com gosto de quero mais. Tenho muita inveja de quem escreve melhor do que eu. De Geraldo Maciel, ou de Barreto, não importa, eu tenho é raiva.



16 Maio 2009

Brisa e rajada




Ninguém nota que falta luz quando se está enroscado no corpo do outro, mãos e bocas atarefadas em prender, sugar e morder a maior superfície disponível no menor tempo possível. Faltou luz, sim. O ventilador parou, mas sua brisa, ali, seria inútil.

Daí que eles permaneceram grudados um no outro enquanto o calor arrefecia. Literalmente grudados, pois o suor colava a pele dos ventres, amantes siameses ofegando a um só ritmo.

A luz voltou, mas os olhos não se deram conta, pois a lâmpada ficou apagada desde antes. Mas o resto dos corpos acusou um calafrio quando uma brisa tênue varreu a cama.

Um bisturi invisível descolou as peles dos ventres. Cada corpo entregue a seu frio respirava agora lentamente. O que foi brisa, agora é rajada. Os corpos enroscam-se novamente em busca de calor.

Ronaldo Monte
Clube do Conto, 16.05.2009

Imagem obtida em theurbanearth.wordpress.com

09 Maio 2009

Para minhas mães

Para sempre

Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

07 Maio 2009

O fim da noite - versão em inglês de Elaine Erig





The End of the Night

by Ronaldo Monte


Failed to light yesterday evening. For absolute lack of what to do, I expect to sleep in bed. With the delay of sleep and the absence of internal images, focused my attention on the total darkness that was immersed. I spent the hand in front of the eyes and did not notice any movement.
I thought I was close to having an experience of blindness and one end of trouble appeared. But then I remembered what I told me my friend Jane Belarmino, blind and visionary: the fear of the dark is a problem for you.
I do not know the darkness. In fact, taking isolated experiences as last night, I do not know the darkness.And very few people living in cities can be said of the intimate dark. The night, as a synonym of darkness, is an increasingly rare phenomenon. The concern for security and control of people did with the darkness that was banned from the streets and buildings of cities. The evening today is only a period of time very different from the day. When you enter a supermarket or a mall, jumping in a time continuum, where the artificial light eliminates any difference between day and night. The - small dark of the film -is more an expression of caring that real. Besides not being an absolute darkness, the clear light projected on the screen, it can be enjoyed by day or night.
For lack of a clear distinction (or dark) in the day, the night lost its purpose for the period to rest and sleep. Pushed increasingly into the night did the things of day. Pharmacies, supermarkets, gas stations and many other services are open continuously. We crossing the night studying or working. Just going to bed when the exhaust no longer allows us to any activity. Here, then, is the insomnia. And then we realize that we lost contact with our first night. The side that leads us to dream and the pastures repairers that reveals the other side of sleep. The dry eyes, the soul dry, the dryness of the imagination. This is the price we pay at the end of the night. Besides the bad mood the other day.



30 Abril 2009

O fim da noite



Ontem faltou luz de noite. Por falta absoluta do que fazer, fui esperar o sono na cama. Com a demora do sono e pela ausência de imagens internas, concentrei minha atenção na escuridão total em que estava imerso. Passei a mão na frente dos olhos e não percebi nenhum movimento. Pensei que estava tendo uma experiência próxima à da cegueira e surgiu uma ponta de angústia. Mas logo me lembrei do que me disse minha amiga Joana Belarmino, cega e vidente: o medo do escuro é um problema de vocês. Eu não conheço a escuridão.

Para dizer a verdade, tirando experiências isoladas como a da noite passada, eu também não conheço a escuridão. E muito pouca gente que mora nas cidades pode dizer-se íntima do escuro. A noite, como sinônimo da treva, é um fenômeno cada vez mais raro. A preocupação com a segurança e o controle das pessoas fez com que a escuridão fosse banida das ruas e dos edifícios das cidades.

A noite, hoje, é apenas um período de tempo muito pouco diferente do dia. Quando entramos num supermercado ou num shopping, mergulhamos num tempo contínuo, onde a iluminação artificial elimina toda diferença entre o dia e a noite. O próprio escurinho do cinema é mais uma expressão carinhosa do que real. Além de não ser um escuro absoluto, pela óbvia luz projetada na tela, ele pode ser usufruído de dia ou de noite.

Por falta de uma diferenciação clara (ou escura) com o dia, a noite perdeu sua finalidade de período próprio ao descanso e ao sono. Empurramos cada vez mais para dentro da noite as coisas que fazíamos de dia. Farmácias, supermercados, postos de gasolina e tantos outros serviços permanecem abertos ininterruptamente. Varamos a noite estudando ou trabalhando. Só vamos para a cama quando a exaustão não mais nos permite qualquer atividade. Aí, então, vem a insônia. E só então nos damos conta de que perdemos o contato com o nosso lado noturno. O lado que sonha e nos leva para os pastos reparadores que se descortinam do outro lado do sono. Os olhos secos, a alma seca, a secura da imaginação. Este é o preço que pagamos pelo fim da noite. Além do mau humor do outro dia.


Imagem obtia em: viajeaqui.abril.com

26 Abril 2009

Luto



Tenho uma foto antiga de meu pai cercado com seus colegas de trabalho, todos com seus indefectíveis ternos de linho branco. O que chama a atenção é que um deles está de gravata preta e tem um pedaço de tecido preto na lapela do paletó. O pessoal mais velho sabe que o tecido preto se chama fumo e quer dizer que aquela pessoa perdeu alguém muito próximo recentemente. É uma demonstração externa de sofrimento e nos lembra que devemos ser tolerantes com aquela pessoa, respeitando o seu recolhimento, permitindo que viva até a exaustão o seu luto.
Das viúvas de antigamente, esperava-se que usassem luto fechado por um ano, o que exigia que todos os seus vestidos fossem tingidos de preto e mantivessem um comportamento sóbrio, sem nenhuma manifestação exacerbada de alegria durante doze meses. Só depois da missa de um ano é que lhes era permitido usar o luto aliviado, o que queria dizer que suas roupas podiam agora ser mescladas de preto e branco ou feitas com tecidos de cores sóbrias, como o azul marinho ou o marrom.
Era triste, sim. Mas era justamente de tristeza que se tratava. A tristeza aceita como um sentimento digno de ser exteriorizado, com regras e normas aceitas pela comunidade que partilhava e respeitava os enlutados.
Hoje, sua tristeza não interessa a ninguém. Se estiver triste, esconda-se. Você não será bem aceito nos templos maníacos da sociedade sem dor e sem memória. Sua tristeza não cabe nem mais nas igrejas ou nos cemitérios. Tudo virou festa. Aos que insistem com suas melancolias e estados depressivos, restam os livros de auto-ajuda ou os comprimidos de tarja preta. A mesma tarja que antes se via na lapela dos paletós dos viúvos.


Imagem obtida em: www.flickr.com

24 Abril 2009

Bispo do Paraguai



Mais uma vez a igreja católica exibe sua potência ao mundo. Desta vez, sua potência sexual. No último dia 14, o presidente do Uruguai, Fernando Lugo, assumiu publicamente a paternidade de um menino de dois anos, fruto de uma relação mantida enquanto era bispo do Departamento de San Pedro. Menos de uma semana depois, outra paraguaia pede que o presidente assuma um filho de seis anos, também concebido enquanto era bispo e a moça tinha 16 anos. Mais recentemente, uma terceira mulher diz que também tem um filho do presidente, concebido depois da renúncia deste ao posto religioso para se candidatar à presidência do Paraguai. A relação dos dois, entretanto, vinha de antes da renúncia.
Sou incondicionalmente a favor do amor entre as pessoas, independente de qualquer circunstância. Mas não é de amor que estamos tratando. Estamos diante de um homem sem escrúpulos que escondeu do povo sua condição de pai irresponsável, posando de paladino da moralidade e dos princípios democráticos para os eleitores do seu País. E foi com esta falta de escrúpulos que ele se elegeu presidente. Pois a sua renúncia ao cargo eclesiástico não se deveu ao compromisso com nenhuma dessas mulheres ou com seus filhos. Renunciou apenas porque a constituição do Paraguai proíbe que ministros religiosos exerçam cargos púbicos.
Até que já estava caindo de moda dizer que era “do Paraguai” qualquer coisa ou pessoa falsa que tentassem nos passar como verdadeiras. Infelizmente, mais uma vez a falsidade vem se associar a esse País tão maltratado pela história, desta vez disfarçada sob os rótulos da religião e da política. O povo paraguaio merecia coisa melhor.
Todos nós, da América Latina, merecemos coisa melhor.



Imagem obtida em ocastendo.blogs.sapo.pt

15 Abril 2009

O gosto da memória




Essa história de Páscoa com ovos e coelhinhos é relativamente nova em minha vida. Quando era menino, o que existia mesmo era a Semana Santa. Começava no Domingo de Ramos, com o Cristo entrando em Jerusalém aclamado pelo povo. Já na Sexta-Feira da Paixão o Filho do Homem estava crucificado. Passava-se o Sábado de Aleluia em luto pela sua morte. Na meia-noite ia-se à missa, onde o padre ficava procurando a Aleluia em um livro enorme. Se não achasse a Aleluia, era certo que o mundo ia se acabar. Por isso os sinos tocavam energicamente e todas as luzes da igreja eram acesas quando, do meio do latinório, ouvia-se a palavra salvadora: Aleluia. O fim do mundo ficava adiado até a próxima Semana Santa. No Domingo, enfim, comemorava-se a Ressurreição. Não sei muito bem como se encaixam aqui os três dias em que, segundo a antiga liturgia, o Cristo desceu aos infernos.
Este ano, mais uma vez, fui passar a Semana Santa em Maceió. É um dos meus poucos luxos com que gosto de fazer inveja aos amigos. Atitude, reconheço, bem pouco condizente com o espírito de humildade cristã que deve reger esta época do ano. Mas vaidade é vaidade. Vamos lá. Comi e bebi como um cônsul romano, entre curtos intervalos imerso numa piscina de água quase morna.
Sempre se comeu bem na casa desses meus primos, desde o tempo em que minha Tia Carminha tomava conta da cozinha. Mas é de um tempo anterior a este que me vem a lembrança da melhor refeição da minha vida. Tia Carminha morava numa casa parede-meia, na beira da linha, no bairro de Jaraguá. Casa pequena, mas com um quintal generoso, onde uma mangueira deitava fruta e sombra. Era Semana Santa e a proibição da carne era compensada com um siri de coco digno de constar da Santa Ceia. Feijão com farinha, comidos à mão em bolões molhados em um molho de pimenta malagueta feito com o caldo do próprio siri. Tudo isto acompanhado com uma manga espada estourando de amarela, chupada pelo bico, como um seio. Esta foi a comida mais gostosa de toda a minha vida. Sem vinho, sem chocolate, sem coelhos em volta. Só os olhos e as mãos milagrosas da minha tia.


Imagem obtida em www.receitastipicas.com

07 Abril 2009

Derivas

Os judeus celebram a Páscoa em memória da libertação da escravidão no Egito. Os cristãos comemoram a passagem para o novo tempo que a ressurreição do cristo anuncia. Liberdade, renovação. Que sentido fazem estas palavras fora do seu contexto estritamente religioso e litúrgico?
Um olhar mais atento sobre o mundo nos mostrará que a única liberdade visível é a que se anuncia como liberalidade do mercado. E todos sabemos o quanto isto tem acentuado a desigualdade entre os países e aprofundado a distância entre as classes. Quanto à renovação, ela se dá do ponto de vista estrito das mercadorias, o que nos empurra para um processo alucinado de consumo.
A humanidade ainda não conheceu a Páscoa. Somos todos errantes. Vivemos à deriva num deserto ético em que só os sistemas religiosos parecem apontar alguma salvação. E nisto reside a nossa miséria e nossa esperança. Miséria, porque todo o nosso percurso histórico ainda não conseguiu prover a humanidade dos instrumentos tecnológicos e ideológicos necessários a uma convivência de bonança e harmonia. Esperança, porque alguns desses sistemas religiosos apontam para certas saídas éticas que contemplam uma convivência na diversidade.
Judeus ou cristãos, muçulmanos ou budistas, pagãos ou ateus, nenhum de nós conheceu ainda a liberdade ou a renovação. Vivemos todos ainda à espera de uma Páscoa que nos resgate a todos deste êxodo em que ainda não vislumbramos nenhuma terra prometida.
E enquanto esperamos a Páscoa, reconheçamo-nos humildemente como seres de incertezas e derivas. Que a humildade seja o nosso único ponto em comum. No mais, cada um que derive a seu modo. O cuidado maior, enquanto derivamos, é não dar ouvidos aos que apregoam suas crenças como caminhos exclusivos para a salvação. Todos temos o direito de escolher se e como queremos ser salvos.
Ilustração :"Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault (1791-1824).

26 Março 2009

Roupa íntima




Não se deve deixar roupas íntimas penduradas na maçaneta interna da porta do banheiro. É possível que elas sejam esquecidas lá por muito tempo e não se pode medir as consequências desse esquecimento.
André havia se mudado para aquele apartamento há menos de uma semana. Era a primeira noite de sexta-feira que passava na nova casa. Por isso, a primeira coisa que quis fazer quando chegou do trabalho foi tomar um longo banho. Depois ia bebericar um uísque e pensar com quem fazer a inauguração. Uma namorada ou um punhado de amigos mais chegados que não reparassem na desarrumação.
Entrou no banheiro e sorriu com o hábito de fechar a porta. Lembrou-se que Antônio Maria dizia que a única vantagem de morar só é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta. Mas a água já escorria morna. A porta aberta ficava para a próxima vez.
André ainda esfregava a cara com a toalha quando viu um sutiã pendurado na maçaneta da porta. Bem que podia ser de uma de suas namoradas, quis pensar, mas logo se lembrou que nenhuma delas ainda estivera ali. Só podia ser da antiga inquilina.
Por um súbito e inexplicável pudor, André não tocou no sutiã. Não era direito pegar numa coisa tão íntima de uma pessoa que não conhecia. A toalha já enrolada na cintura, sentou-se na bacia sanitária e ficou estudando a peça pacientemente. De aparência um pouco desgastada, parecia reservado ao uso doméstico ou em saídas rápidas sob uma camisa de meia. Os bojos eram de tamanho mediano, mas o elástico desgastado sugeria um excesso de volume a ser sustentado. Seios ligeiramente fartos, concluiu André. E imaginou a totalidade do busto que ali se ajustaria.
Concluída a construção da parte superior, passou a deduzir o restante do corpo que habitara o seu banheiro. Simetria entre busto e quadris era coisa de miss dos anos sessenta. André preferia ver as ancas um pouquinho mais estreitas que o perímetro superior, mas fartas o suficiente para delinear uma curva descendente em direção ao ventre, estando a dona lendo um livro deitada de lado, uma das mãos apoiando a cabeça.
A cabeça. Eis um enigma enorme para André. Um corpo assim exigia cabelos longos. Longos e negros. Mas a mulher não podia ficar assim, só cabelos. Precisava de um rosto com olhos para ler o livro. Teria óculos, como toda mulher que lê na cama. E uma boca com lábios carnudos para balbuciar uma frase aqui e ali. E precisava de mãos delicadas para segurar o livro e passar as páginas. Faltavam ainda coxas, pernas e pés para que a dona se mexesse a cada passagem mais excitante da leitura.
André se vestiu apressado e deixou o quarto sem fazer barulho para não atrapalhar a leitura da mulher. Foi para a sala, preparou seu uísque, mas não telefonou para ninguém. Bebericou a dose e ali mesmo, no sofá, caiu no sono.
Quando André acordou na manhã do sábado, a luz do quarto ainda estava acesa. Escutou virar uma página de livro. Viu que não tinha nada para o café a manhã. Calçou as sandálias, levantou-se sonolento e falou alto em direção ao quarto: vou ali na padaria comprar alguma coisa. Volto já.


23 Março 2009

Aeromoça

A moça queria um bem.
Queria um bem querer
para esperar, suspirar,
Um bem para maldizer.

Um bem para querer bem.
Bem bom de telefonar,
torpedear, orkutar,
de emessieneamar.

A moça queria um bem
que a fizesse tremer,
que a fizesse gelar,
que a fizesse morrer.
Que fizesse ela voar.



Foto: Ana Patrícia
Imagem obtida em http://www.flickr.com/photos/anap

17 Março 2009

Crime contra a humanidade


Ainda no avião que o levaria, hoje, à sua primeira viagem à África, o papa Bento XVI declarou aos jornalistas que a distribuição de camisinhas apenas agravaria o problema da Aids no continente. O papa bate de novo na velha tecla da abstinência como prevenção à contaminação. Ora, se abstinência fosse remédio para alguma coisa, os problemas da igreja com o crimes de pedofilia de seus padres estaria resolvido. A atitude do papa e de seus seguidores é de um cinismo palmar. A Africa Subsariana, embora represente apenas 10% da população mundial, comporta 64% de soroppositivos. Noventa por cento desse total é composto de crianças com menos de 15 anos de idade. Querer impedir que medidas profiláticas sejam aplicadas a essas pessoas, por razões irracionais como as alegadas pela igreja católica, qualifica-se claramente como um crime contra a humanidade.

Imagem obtida em: modos-de-olhar.blogspot.com

15 Março 2009

Pele e osso


Vinha da praia com Glória, perto da hora do almoço. Cruzamos com três meninas que voltavam da escola. Saltitavam em seus dez, onze anos e tagarelavam. O ouvido apurado recolheu de uma delas: claro que faço regime. Não quero ficar gorda como você. Deixamos o trio se afastar um pouco e nos viramos para conferir. Estavam todas no limite da magreza pré-adolescente.
Já de tarde, Glória volta da rua com um caderno promocional de uma loja de roupas. Fiquei escandalizado com a escassez de carne das modelos. E não é somente a ossada à flor da pele que me impressiona. A maquiagem, o olhar e a postura das moças, ajudadas pela ambientação das fotos, sugerem uma lânguida lassidez que deve exercer uma atração mórbida nas meninas que voltavam da escola.
Terapeutas e psicanalistas andam preocupados com a incidência de casos de anorexia e bulimia em seus consultórios. Tem muita gente boa tentando compreender a epidemia de pele e osso que assola as mulheres em todos os cantos do mundo ocidental.
É certo que o problema não é novo. Quando eu era menino, uma vizinha rechonchuda morreu de tanto tomar vinagre para emagrecer. O que está acontecendo é uma valorização social da esqualidez por parte da mídia, o que leva as adolescentes a aderir ao modelo como a um modismo qualquer, sem medir as conseqüências irremediáveis para a sua saúde.
Ana e Mia (como são carinhosamente chamadas a anorexia e a bulimia pelas suas adictas) põem a descoberto uma grave síndrome da contemporaneidade. Por não ter o que revelar do seu mundo interior, as pacientes exibem o que sustenta o interior do seu corpo. O esqueleto à mostra revela, enfim, o ideal estético da desumanidade. Sem a sujeira das tripas, sem a volúpia das carnes. Só a pele, os ossos e o nada.


11 Março 2009

Vai acabar em inglês

A nova reforma ortográfica fez a besteira de tirar o circunflexo das terceiras pessoas do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver", assim como de palavras terminadas com o hiato “oo”.
Não sou muito dado a premonições, mas acho a norma vai acabar contribuindo com o já avançado processo de americanização da língua brasileira. Não vai demorar muito para a moçada começar a ler palavras como “deem”, “leem” e “veem” como “dim”, lim” e “vim”. Da mesma forma, “enjoo” e “vôo” vão acabar sendo lidas como “enju” e “vu”.

Eu e o meu corretor ortográfico somos contra.

07 Março 2009

Enigmas da noite

Vem, amigo.
vem andar comigo pela noite.
Pelas ruas escuras desta noite.
Tua presença m dá coragem
e juntos vamos atravessar todos os becos,
todos os cantos escuros desta hora.
A hora cheia.
A hora gorda da noite
em que as encruzilhadas espreitam
e as avenidas se estreitam
para quebrar nossos ossos.

Vem, amigo.
Anda a meu lado o mais próximo de mim.
Escuta o baque surdo sobre folhas.
Será o amor ou a morte entre dois corpos?
Apura o ouvido e fala:
esse líquido rumor
é vinho deitado em taça
ou sangue de veia cortada a navalha?

Chega-te mais e diz:
são cães ou homens que uivam
na crista deste muro?
A noite deita seus enigmas, amigo.
A noite é mãe e puta dos enigmas.

Mas nossos passos pelas ruas
derramam uma luz tênue sobre a noite.
E o leito da noite já não é ameaça de morte.
É mais um convite para se passar e ir embora.
Que a noite não quer ninguém com ela.

A noite quer ir-se embora.
Esvair-se na palidez que não fere.
Morrer para que nasça
- não o dia -
uma luz opaca, irmã,
a caminhar entre nós dois.



Imagem obtida em :
www.naomesquecerderespirar.blogspot.com


28 Fevereiro 2009

Morte e inferno



O deputado Luiz Couto está condenado à morte. Seu erro foi ter denunciado todos os nomes dos envolvidos com o crime organizado na Paraíba, quando presidiu uma Comissão Parlamentar de Inquérito, encerrada em 2005. Foram mais de trezentos nomes apontados, entre políticos, juízes, promotores e policiais. Gente graúda que exigiu a cabeça de Luiz Couto. Sem nenhuma metáfora. Luiz Couto já teve proteção da Polícia Federal, mas a instituição achou que não cabe a ela zelar pela segurança os parlamentares. Luiz Couto que se vire. Ou morra. Depois do recente assassinato do advogado Manoel Mattos, um dos depoentes na CPI, o deputado Luiz Couto foi anunciado como o próximo da lista de extermínio. Daí, pediu novamente a proteção da Polícia Federal, mas o seu pedido caiu numa cadeia burocrática que até agora só produziu protelações. Mais uma vez, Luiz Couto que se vire. Ou morra.
O padre Luiz Couto está condenado ao inferno. Seu pecado foi ter defendido o fim do celibato e o uso da camisinha, numa entrevista ao programa “Congresso em Foco”. Por isso, está proibido de celebrar missas pelo arcebispo da capital da Paraíba. O padre Luiz Couto sempre esteve ao lado dos oprimidos e injustiçados. Suas idéias sempre contrariaram o bando mais conservador da igreja católica, que tem no atual arcebispo um de seus mais ferrenhos representantes. Nada mais natural, portanto que seja condenado à excomunhão e o conseqüente fogo do inferno.
O deputado Luiz Couto e o padre Luiz Couto não são duas pessoas distintas. Quem conhece o discurso e a prática do padre, sabe o que pode esperar do parlamentar. E vice-versa. Mas não são apenas os oprimidos e injustiçados que conhecem a coragem deste homem íntegro que se chama Luiz Couto. As forças retrógradas do coronelismo, laico ou clerical, também a conhecem. Por isso o querem morto e condenado ao inferno. Mas nós, que nos sentimos representados pelo parlamentar e incitados pelo religioso, queremos Luiz Couto vivo. E nada precisamos desejar aos seus inimigos. Estes já estão condenados pela história à morte política e ao inferno moral.

Ilustração:
William Blake - Dante's Inferno, Whirlwind of Lovers.
Obtida em www.nimbi.com

25 Fevereiro 2009

Trema


Ser pai coruja é pouco. Sou tio coruja também. Esta idéia aqui é de minha sobrinha Ana Patrícia.
Ela está se revelando uma fotógrafa muito criativa. Veja mais coisas dela em

21 Fevereiro 2009

Senhores e escravos


No final de uma oficina de leitura, um rapaz jogou um pedaço de papel no chão e pedi para que o apanhasse e botasse na lata do lixo. Fiquei surpreso com a arrogância da resposta: jogando este papel no chão, eu estou dando emprego a muita gente.
É com este mesmo tipo de pensamento que as pessoas jogam suas latinhas de cerveja pela janela do carro, pontas de cigarro acesas ao largo das estradas, potes usados de iogurte pelas janelas dos apartamentos e deixam montanhas de lixo nos parques e nas praias.
Passei muito tempo tentando entender como um adolescente pobre e mestiço chega a reproduzir uma ideologia típica de uma classe antagônica à sua, pois são justamente os trabalhadores pobres e mestiços que limpam a sujeira que uma minoria abastada espalha pelo mundo desde tempos imemoriais.
Entre os que sujam e os que limpam, ele já escolheu o seu lugar. Ficando do lado dos que sujam, ele pode se imaginar rico, poderoso, sem qualquer obrigação de prestar contas a ninguém dos seus atos de vandalismo. É isto o que ele quer ser quando crescer. É isso o que ele já pensa que é, em sua pouca idade. O que ele não sabe, é que não tem lugar para ele no lado dos que sujam. Todas as vagas já estão garantidas para os filhos dos sujões de hoje. Queira ou não, o seu lugar já está reservado no lado dos que limpam. E não apenas limpam, mas que trabalham no subterrâneo para fabricar, transportar e vender os produtos com os quais os outros sujarão a superfície do mundo.
Na versão pós-moderna da dialética do senhor e do escravo, não há lugar para a esperança de que o escravo tome consciência do valor do seu trabalho. Consequentemente, o senhor também não se libertará da sua estagnação que se daria ao acompanhar a tomada de consciência do escravo.
Ambos, escravo e senhor, estão soldados em um projeto de sujar e exaurir o mundo. O que nos torna a todos, enfim, servos de um sistema louco de autodestruição.


Imagem obtida em www.vivercidades.org.br

15 Fevereiro 2009

Aquarius


Finalmente, no sábado passado, a lua entrou na sétima casa e júpiter se alinhou com marte. Estamos em plena era de aquário. Agora é só esperar que a paz sirva de guia aos planetas e o amor oriente as estrelas. Pois era isto o que nos prometia a já antiga canção, a mais bonita e emocionante de Hair, o musical que conquistou corações e mentes em todo o mundo.
Eram promessas feitas por uma geração que vivia a guerra do Vietnam e as ditaduras sul-americanas. Estreando nos Estados Unidos em 1967, onde teve 1918 apresentações, Hair foi recebido a mão armada em outros países. Depois da primeira apresentação no México, a peça foi proibida pelo governo. Os atores, ameaçados de prisão, deixaram o país às pressas. Encenado no Brasil em plena vigência do AI 5, Hair estreou em São Paulo depois de uma dura negociação com os censores. As várias cenas de nudez foram reduzidas a uma única e rápida exposição em que os atores não podiam mexer um dedo. Também foram proibidos de dançar em cima de uma bandeira dos Estados Unidos, como se fazia na versão americana, tendo de se contentarem com um lençol branco.
Passaram-se mais de quarenta anos. É claro que os tempos são outros. A guerra do Iraque não manda tantos mortos para casa como a do Vietnam e as ditaduras do cone sul são coisas do passado. Talvez ainda nos seja permitido sonhar com um tempo de harmonia e compreensão. Um tempo abundante de simpatia e confiança. Tempo sem mentiras ou escárnios. Em que possamos sonhar com visões douradas e a revelação do místico cristal. Pois é isto o que nos promete a canção. Este é o espírito da verdadeira libertação.
A crer nos astros, estamos assistindo o advento da era de aquário. A crer nos antigos poetas, a paz guiará os planetas e o amor orientará as estrelas. Eu lembro dos meus cabelos longos e insisto em sonhar o velho sonho impossível.

Imagem obtida em: LIFE

O garanhão sem memória



São umas insensatas. Escrevem para mim sem se importar se minha mulher ou minhas filhas têm acesso à minha correspondência. Falam abertamente de coisas que fizemos juntos das quais se dizem saudosas e ardentes de desejo em repeti-las. E para que não reste dúvida quanto às minhas proezas, todas elas mandam fotos comprometedoras que me nego a ver. Vejam o que me diz uma certa Lu:
“Oi, eu falei que ia tirar umas fotos especiais pra vc.. separei essas ai so pra vc, o resto está no anexo. depois manda um email dizendo o que achou tá bebê ! Agradeço desde já por tudo que aprendi contigo =* Beijosss...”
Claro que há uma certa contradição em me chamar de bebê e ao mesmo tempo agradecer pelo aprendizado. Mas pela grafia do Beijosss, acho que trabalhei muito bem.


Queixosa, Vera implora por uma migalha da minha atenção:
olla!! Por que você faz isso comigo? Passou por mim ontem e fingiu que nem me viu... será que poderíamos conversar um pouco? Não sei se você lembra dessa foto que tiramos juntos. Espero que goste um pouco de mim, nem que seja pela nossa amizade. Beijos, te adoro muito. !! Bejos!”


Lacônica, Vick faz um mea culpa mas não esquece a fatídica fotografia:
“Oiiii...!! tudo bem? Pois é eu sumi... mas eu não esqueci daquela nossa foto. Você lembra né?! Pois aqui está a foto que você tanto queria...Abraços!!!”


De riso frouxo, Tamira é das mais perigosas, pois não conhece só a mim. Fico pensando quem são esses “todos”:
"Acabei mandando a foto kkkkkkkkkkk... Mais ver se manda uma tbm viu??? Ficou show D+, manda um abraço ai pra todos, e não esquece de mandar uma tua! ;) Se não tiver gostado muito, manda um recado que te mando outra!"

Por fim, Rafinha revela não possuir apenas uma foto, mas um álbum completo com as coisas que fizemos juntos. E o que é pior, sugere que eu mesmo tenho uma coleção semelhante que, juro, não sei onde possa ter guardado:
“Oieeee, quanto tempo heim... nada de me responder.. porquê?!
Olha oque o pessoal fez com as fotos da gente... ficou muito legal :)
Achei a maior graça... Porque você nao faz um destes?
Eu adoreiiii!!!Abraços, e uma ótima semana!”

Pelo nível do português, vocês devem estar imaginando os lugares em que procuro companhia para minhas horas de tédio. Pois aí é que está o mistério. Toda essa fama, todo esse desempenho, toda esta documentação, e não sou capaz de me lembrar de nada do que ando fazendo com essas moças. Definitivamente, preciso deixar de beber.

08 Fevereiro 2009

Um dia, um homem...



Minha mãe se casou com um homem bonito, de coração brando e alma de artista. Fazia teatro, pintava aquarelas, escrevia poemas. A casa de vila, num subúrbio perdido, estava sempre com o aluguel atrasado. Minha mãe sustentava a casa dando aulas de inglês. Meu pai passava as manhãs dormindo, acordava para o almoço e saía no meio da tarde. Voltava de madrugada, de olhos vermelhos e um sorriso perdido na cara. Minha mãe dormia sentada na cadeira de balanço, comigo no colo. Mais tarde me contou. Não esperava meu pai. Um dia, sonhava, um homem entraria pela porta e a levaria para uma casa bonita, com um jardim florido, numa rua com árvores e um carro na porta.

Minha avó se casou com um homem de bigode, sério e calado, dono de um armazém sortido na rua principal de uma cidade bonita do interior. Meu avô fechava o armazém às seis da tarde, jantava calado e saía para jogar baralho. Um dia, chegou afobado, quase de manhã. Acordou minha avó e ordenou que arrumasse a mudança. Tinha perdido o armazém e a casa no carteado e assim que clareasse ia entregar as chaves para o ganhador. Se mudaram para uma casa de taipa no fim da rua da Lama. Minha avó passava as noites acordadas olhando a porta. Mais tarde, contou pra minha mãe. Não esperava meu avô. Um dia, sonhava, um homem bonito viria e sairiam pelas ruas de mãos dadas, primeiro para o cinema, depois tomar sorvete, depois namorar na praia, depois morrer de amor.

Minha bisavó casou com um homem sem sorte. Estava sempre no lado errado da vida. Entrou na Coluna Prestes quando ela passou pela Paraíba, em 1926, de volta do Piauí. Fugiu quando o último recurso da tropa era se refugiar na Bolívia. Minha bisavó ficou dois anos esperando a volta do herói. A sorte lhe sorriu um pouco quando o marido foi trabalhar numa torrefação de café. Já era quase gerente quando veio a crise de 29 e o preço do café começou a desabar. A torrefação quebrou, o casal se mudou com os filhos para o Recife. Ainda viviam como remediados com a sobra das economias. Dava ainda para pequenos luxos, como tomar uma gasosa na Confeitaria Glória, no bairro da Boa Vista. Estavam justamente lá, num fim de tarde friorenta de julho, quando um homem desesperado gritou “João Pessoa” e atirou. Um tiro foi o que bastou para lembrar todo o sofrimento nas marchas da Coluna. Meu bisavô saiu correndo e foi preso como cúmplice do assassino. Minha bisavó voltou para a Paraíba com os filhos e desde então deixou de dormir. Passava as noites vigiando os passos na rua. Mas não esperava o marido. Ela mesma contou para minha avó. Um dia, sonhava, um homem de sorte bateria em sua porta com um buquê de flores e um anel de brilhantes. Tomariam um navio e viveriam felizes em Paris.

A mãe de minha bisavó foi roubada de casa por um fazendeiro. Quando ele perguntou se ela queria fugir, não disse que sim nem não. Mas deixou a janela do quarto aberta. Qualquer coisa seria melhor do que aquela vida miserável de trabalhar no eito. Foi morar numa casa grande, quase uma tapera. O pai do seu marido tinha sido rico, dono de escravos e muitos pés de algodão.Mas veio a Lei Áurea, veio a república, veio a praga que acabou com o algodoal. Agora seu marido ficava ali, sentado na espreguiçadeira, fazendo contas de quanto estaria colhendo se ainda estivesse plantando. A mulher ficava sentada nos batentes da entrada, olhando os rachões da terra até que os olhos ardessem com tanta luz. Aí então, os fechava para sonhar que um dia, um homem vestido de couro viria buscá-la em seu cavalo. E sairiam a galope até um lugar coberto de grama verde, cortado por um riacho perene, onde se amariam rodeados de bois e passarinhos.

Não sei onde começa esta lenda do homem que virá. Talvez ela se perca entre as lanças de Alcácer Kibir, onde mais de um homem desapareceu, além de Dom Sebastião. Só sei que esta espera acaba aqui, comigo. Se algum homem quiser me encontrar, que venha sem que eu o espere. E não me queira levar para lugar nenhum. Pois estou bem onde estou, contente com quem sou. Tenho meus sonhos, claro. Mas o tempo em que vivo não comporta lendas.

Ronaldo Monte
Clube do Conto, 07 de fevereiro de 2009.
Imagens obtidas em:
http://www.terrabrasileira.net/ (vaqueiro)
zig.blogs.sapo.pt (homem com flores)
br.geocities.com (casa com jardim)
redeparede.com.br (mãos dadas)

06 Fevereiro 2009

Eu avisei

Lula critica pacote 'protecionista' de Obama
Em entrevista exclusiva à BBC, presidente sugere que proposta dos EUA fere regras da OMC.

UE e Canadá criticam protecionismo em pacote de Obama
Cláusula de preferência por produtos americanos causa apreensão internacional.

É só olhar a quarta postagem abaixo.

01 Fevereiro 2009

Passageiros



Somos todos passageiros. Nem o motorista e o cobrador escapam. Estamos todos de passagem. Indagora mesmo, passamos de um ano para outro. A rigor, nada de mais aconteceu na ordem natural das coisas. Acontece que não somos naturais. Somos animais de cultura. Temos alma, temos memória, sentimos saudades e alimentamos a teimosia da esperança. Por isso precisamos marcar a passagem do tempo. Para construir um elo entre a saudade e a esperança.


Somos todos passageiros. Um dia, todos passaremos. E conosco passarão todo o júbilo e todo sofrimento, todo o amor e toda ira que julgávamos eternos. Sejamos, pois, pacientes. Mergulhados no rio do tempo, deixemos que ele nos lave de toda pretensão de eternidade.

Somos todos passageiros. Viajamos no bojo de uma nave que nos leva por um caminho invisível e sem estação de chegada. Da janela vemos o sítio infinito por onde vagamos e nos damos conta do quanto somos miúdos. Do quanto somos frágeis e desamparados. Por isto inventamos mitos, alimentamos heróis, criamos lendas, fazemos poemas, construímos cidades.
Somos todos passageiros. E sabemos que a qualquer momento a nossa viagem pode chegar ao fim. Por isto somos melancólicos, sofrendo por antecipação uma perda que sabemos inevitável. Toda separação é dolorosa. Todo desaparecimento é temível. Por isto erguemos monumentos. Por isto tiramos fotos, por isto criamos na memória uma história sem mácula, em que somos todos bons.

Estamos em trânsito. Trazemos de nascença a marca da transitoriedade. Transitemos pois com esperança para o ano que começa. E que não tenhamos motivos para ter saudade desse ano que já passou tarde.

Ronaldo Monte

Imagem obtida em: www1.folha.uol.com.br