Existe um deus desocupado que, por não ter coisa melhor a fazer, decidiu ser torcedor do Real Madri. Um deus irresponsável que, no meio de uma crise financeira internacional devastadora, fez aparecer, por milagre, uma fortuna no cofre do seu clube para contratar um jogador de futebol de sua preferência. Não satisfeito, e vaidoso de sua divindade, mandou a mulher do jogador abrir uma igreja na Espanha para louvar os seus feitos em favor dos ricos e descolados deste e do outro mundo.
Pelo menos é isto o que nos deixa imaginando o depoimento de Caroline Celico, mulher do jogador Kaká, recentemente contratado pelo time espanhol. Para Caroline, o milagre é evidente: “Como pode alguém no meio da crise ter dinheiro? Deus colocou esse dinheiro ma mão do Real Madri para contratar o Kaká. Nós vamos abrir uma igreja lá. Existem vidas que têm que ouvir essa palavra”.
A igreja em pauta é a Renascer em Cristo, propriedade da bispa Sônia e de seu marido Estevam, aqueles mesmos que foram em cana e estão proibidos de sair dos Estados Unidos por tentarem entrar lá com um punhado de dólares não declarados. Devem ter achado sacrilégio declarar um presente tão singelo do deus lá deles.
Eu já devia não me espantar mais com essas picaretagens que, aliás, não são privilégio de nenhuma dessas seitas em particular. Quem se der ao trabalho de assistir ao vídeo vai constatar facilmente que a mocinha não acredita em uma vírgula do que está falando. O que me espanta mesmo é que exista gente crédula o suficiente para se deixar encantar por um discurso ôco de qualquer sustância, seja divina ou profana.
Não é que eu queira tirar o direito de Kaká e sua doce Carolina acreditarem em um deus particular que os protege e enriquece. O que me incomoda é qualquer desses descolados usar o seu brilho pessoal para nos convencer que são os escolhidos dos deuses. E que nós, que ralamos ao rés dos chão, só ascenderemos aos ouros celestes se abrirmos mão de uma parte significativa do fruto do nosso suor para abastecer a conta bancária dos arautos dessa divindade boçal e alienada do sofrimento dos povos.
19 Julho 2009
O deus de Kaká
12 Julho 2009
Parto natural

Muito naturalmente, chispamos para a maternidade, pois nossas contrações já atacavam em menos de cinco minutos de intervalo. Parteira e pediatra a postos, decidiu-se que o parto seria ali mesmo, no quarto. Nada mais natural, portanto, que eu me retirasse, pois tinha clara consciência da minha inutilidade naquele momento.
Foi a primeira vez que testemunhei auditivamente um parto natural. Pelo que sofri, passei a achar que não existe nada mais natural do que uma boa cesariana. Mas todas dizem que é bem melhor a recuperação rápida do que a chateação pós-cirúrgica. Não tenho como optar.
06 Julho 2009
Mãos dadas
30 Junho 2009
A hora e a vez

21 Junho 2009
Os mistérios do mundo

14 Junho 2009
Janelas de apartamento

Em frente a um hotel em que me hospedava com frequência, tinha um prédio de pequenos apartamentos, desses de quarto e sala. Bem em frente ao meu quarto, morava uma mulher que não parava quieta. Ia da sala para o quarto, voltava, perdia-se lá por dentro para aparecer de novo, como um bicho na jaula. E minha curiosidade turbinava, pois eu só conseguia vê-la da cintura pra baixo. Tinha pena dela, mesmo sem nunca saber quem era.
Para mim, a melhor hora de espiar apartamentos é no finzinho da tarde. Me dá uma melancolia, uma vontade de ir esperar as pessoas que vão chegar do trabalho ou da escola, perguntar como foi o dia, ver quem chega com o pão para o jantar. Também gostaria de chegar de repente na porta dos que moram sozinhos, tocar a campainha e entrar para uma visita rápida. Talvez ficando para um café.
Se quiserem ainda me acusar de voyeur, saibam que estou muito bem acompanhado neste vício. Vejam, por exemplo, a letra da música abaixo, de autoria de Renato Rocha, cantada pelo MPB-4. É uma coisa linda. Assim que conseguir baixar a melodia, vou querer repartir aqui com vocês.
Janela de Apartamento
Homem entrando calorento afrouxando o colarinho
A mulher vem lá de dentro: um abraço um beijinho.
Janela de apartamento parece estória em quadrinhos
Lá naquela um cachorrinho, acho que fica sozinho,
a maior parte do tempo
Do lado mora um velhinho que nunca recebe gente
Acho que vive somente pra cuidar dos passarinhos.
O jantar está saindo ali, naquele do centro.
Todos comendo assistindo a novela do momento.
Em cima do cachorinho vagou um a pouco tempo.
Ali morava um brotinho que pra todos os vizinhos
era um acontecimento.
Saudades daquele tempo, aluga-se apartamento.
O homem do colarinho foi na janela um momento.
A mulher foi lá pra dentro, o casal tem um filhinho.
E o velhote sonolento, que dorme com os passarinhos,
fecha a cortina um pouquinho, tira a gaiola do vento,
apaga a luz do aposento.
Janela de apartamento parece estória em quadrinhos.
Ilustração: Óleo de Jean François Millet
Luvas

Não é sempre, nem é em todo lugar. Tampouco é sempre a mesma luva. André tem uma luva para cada ocasião.
Quando Ana Beatriz viu André pela primeira vez, ele tomava sorvete de coco com luvas brancas. Ficou fascinada com a maneira elegante e precisa com que ele segurava a taça, manuseava a colher. Mas logo lhe bateu uma espécie de remorso. E se ele tivesse alguma doença de pele, coitado. Afastou-se olhando sorrateira para André e aquelas luvas não saíram de sua cabeça por uma semana.
Uma semana foi o tempo que Ana Beatriz levou para reencontrar André sozinho numa mesa de bar. Dessa vez ele usava luvas amarelas e tomava cerveja. Os olhares dos dois se cruzaram e ela não teve forças para recusar o convite de André para sentar.
Era atração, mas era muito mais curiosidade sobre as luvas que arrastaram Ana Beatriz à mesa. Sentou já com os olhos fixos nas mãos do rapaz. Ele notou e logo cuidou de explicar. Tinha essa mania. Usava luvas da cor mais próxima do que iria comer ou beber. Nada demais. Um amigo psicanalista garantira não ser doença.
A conversa mudou de rumo, pulou de André para a moça, seus gostos, suas manias, sua vida mais íntima, seu estado civil. Viúva. Ana Beatriz era viúva há quase um ano. Desde esse tempo, nenhum homem tocara seu corpo. Mas de um jeito meio confuso, insinuou que já era tempo de aliviar o luto fechado.
Não tinha lugar mais seguro do que o apartamento de André. Prédio pequeno, sem porteiro, vizinhança calma que se recolhe cedo. Ana Beatriz subia as escadas lentamente, a mão esquerda enlaçada com força à luva de André.
Ela esperou um tempo no sofá da sala enquanto ele dava um jeito rápido no quarto. Depois ele veio apanhá-la com as mãos descalças, deslizando com ela pelo corredor. Sentados na beira da cama, hesitantes sobre o que fazer, a moça sussurra meio rouca: vai com calma, André. Lembre-se que sou viúva. O rapaz então se levantou, levou um pouco tempo mexendo na porta do meio do guarda-roupa e virou-se mostrando as mãos. Beatriz saiu correndo do quarto quando viu as mãos de André vestidas com luvas de renda negra, um curto babado à altura dos punhos abotoados com pequenas pérolas.
Clube do Conto da Parahyba
07 Junho 2009
O trabalho da alma

A alma mora no fundo do corpo. Neste sentido, ela é muito mais misteriosa do que a alma das religiões ou dos medos noturnos das crianças.
Parte da memória de tudo o que nos entra pelos olhos, pela boca, pele, ventas e ouvidos, permanece num canto obscuro do ser, reduzida a enigmas que se movem desordenadamente, apelando para voltar ao sentido que perderam ao penetrar no nosso corpo.
Situada numa região de fronteira entre o corpo e a linguagem, a alma é a operária que dá sentido aos nossos afetos. É o local onde se dá a superação que nos tira da confusão e nos lança no terreno da solidariedade. Pelo trabalho da alma, tudo o que nos invade pelos sentidos é devolvido ao mundo como linguagem.
Vista assim, a alma é o que nos torna humanos, fabricando a linguagem e nos dando a possibilidade de comunicação. Daí, a sua imortalidade. Pois a linguagem antecede a nossa entrada no mundo. E quando desaparecemos, algo do que transformamos em linguagem irá habitar como enigma o terreno obscuro dos afetos dos nossos descendentes, exigindo de suas almas a continuidade do eterno trabalho de nossa transformação em nós mesmos.
Obtida em: www.galeriaaberta.com
28 Maio 2009
Pesar
25 Maio 2009
Delicado
Se me pedissem uma palavra para definir Barreto, responderia sem hesitar: delicadeza. Esta era uma qualidade que vinha antes de todas as outras. Ele podia ser crítico, irônico, até mesmo gozador. Mas tudo isto revestido com a embalagem da delicadeza.Se o leitor quiser saber exatamente do que estou falando, leia um livro de Barreto. Esses que ele assina como Geraldo Maciel. Pegue um conto, que seja. Logo se dará conta de que aquilo é fruto de um delicado trabalho de ouriversaria, ouro e prata engastados de palavras preciosas, mas tudo muito bem disfarçado em simplicidade e clareza. Tente imitar, como eu tentei, um mínimo parágrafo e saberá como é difícil e exaustivo o resultado.
Até para morrer, Barreto foi delicado. Nada de períodos longos de internamento, promessas ilusórias de melhora. Foi ao encontro do Clube do Conto, no sábado, sem dar a menor bandeira. Acordou no outro dia bem disposto e saiu para cuidar da vida. Foi ali, morreu e pronto. Não obrigou ninguém a cancelar compromissos, adiar ocupações, pois escolheu para partir numa manhã chuvosa de domingo, em que não dava praia. Com isso, não estragou o programa de ninguém.
Foi uma pena Barreto ter faltado ao seu velório. Ia ficar feliz com a turma que se reuniu, incrédula, para ter certeza de que a notícia não era brincadeira de mau gosto. Tinha muita gente boa, gente querida. Mas faltava alguém imprescindível. Aquele que saberia dizer as palavras exatas para a ocasião. Nos falaria de perda, de dor e de ausência. Mas falaria muito delicadamente.
16 Maio 2009
Brisa e rajada

Ronaldo Monte
Clube do Conto, 16.05.2009
Imagem obtida em theurbanearth.wordpress.com
09 Maio 2009
Para minhas mães
Carlos Drummond de Andrade
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond
07 Maio 2009
O fim da noite - versão em inglês de Elaine Erig

The End of the Night
Failed to light yesterday evening. For absolute lack of what to do, I expect to sleep in bed. With the delay of sleep and the absence of internal images, focused my attention on the total darkness that was immersed. I spent the hand in front of the eyes and did not notice any movement.
30 Abril 2009
O fim da noite

Para dizer a verdade, tirando experiências isoladas como a da noite passada, eu também não conheço a escuridão. E muito pouca gente que mora nas cidades pode dizer-se íntima do escuro. A noite, como sinônimo da treva, é um fenômeno cada vez mais raro. A preocupação com a segurança e o controle das pessoas fez com que a escuridão fosse banida das ruas e dos edifícios das cidades.
A noite, hoje, é apenas um período de tempo muito pouco diferente do dia. Quando entramos num supermercado ou num shopping, mergulhamos num tempo contínuo, onde a iluminação artificial elimina toda diferença entre o dia e a noite. O próprio escurinho do cinema é mais uma expressão carinhosa do que real. Além de não ser um escuro absoluto, pela óbvia luz projetada na tela, ele pode ser usufruído de dia ou de noite.
Por falta de uma diferenciação clara (ou escura) com o dia, a noite perdeu sua finalidade de período próprio ao descanso e ao sono. Empurramos cada vez mais para dentro da noite as coisas que fazíamos de dia. Farmácias, supermercados, postos de gasolina e tantos outros serviços permanecem abertos ininterruptamente. Varamos a noite estudando ou trabalhando. Só vamos para a cama quando a exaustão não mais nos permite qualquer atividade. Aí, então, vem a insônia. E só então nos damos conta de que perdemos o contato com o nosso lado noturno. O lado que sonha e nos leva para os pastos reparadores que se descortinam do outro lado do sono. Os olhos secos, a alma seca, a secura da imaginação. Este é o preço que pagamos pelo fim da noite. Além do mau humor do outro dia.
26 Abril 2009
Luto

Das viúvas de antigamente, esperava-se que usassem luto fechado por um ano, o que exigia que todos os seus vestidos fossem tingidos de preto e mantivessem um comportamento sóbrio, sem nenhuma manifestação exacerbada de alegria durante doze meses. Só depois da missa de um ano é que lhes era permitido usar o luto aliviado, o que queria dizer que suas roupas podiam agora ser mescladas de preto e branco ou feitas com tecidos de cores sóbrias, como o azul marinho ou o marrom.
Era triste, sim. Mas era justamente de tristeza que se tratava. A tristeza aceita como um sentimento digno de ser exteriorizado, com regras e normas aceitas pela comunidade que partilhava e respeitava os enlutados.
Hoje, sua tristeza não interessa a ninguém. Se estiver triste, esconda-se. Você não será bem aceito nos templos maníacos da sociedade sem dor e sem memória. Sua tristeza não cabe nem mais nas igrejas ou nos cemitérios. Tudo virou festa. Aos que insistem com suas melancolias e estados depressivos, restam os livros de auto-ajuda ou os comprimidos de tarja preta. A mesma tarja que antes se via na lapela dos paletós dos viúvos.
Imagem obtida em: www.flickr.com
24 Abril 2009
Bispo do Paraguai

Sou incondicionalmente a favor do amor entre as pessoas, independente de qualquer circunstância. Mas não é de amor que estamos tratando. Estamos diante de um homem sem escrúpulos que escondeu do povo sua condição de pai irresponsável, posando de paladino da moralidade e dos princípios democráticos para os eleitores do seu País. E foi com esta falta de escrúpulos que ele se elegeu presidente. Pois a sua renúncia ao cargo eclesiástico não se deveu ao compromisso com nenhuma dessas mulheres ou com seus filhos. Renunciou apenas porque a constituição do Paraguai proíbe que ministros religiosos exerçam cargos púbicos.
Até que já estava caindo de moda dizer que era “do Paraguai” qualquer coisa ou pessoa falsa que tentassem nos passar como verdadeiras. Infelizmente, mais uma vez a falsidade vem se associar a esse País tão maltratado pela história, desta vez disfarçada sob os rótulos da religião e da política. O povo paraguaio merecia coisa melhor.
Todos nós, da América Latina, merecemos coisa melhor.
Imagem obtida em ocastendo.blogs.sapo.pt
15 Abril 2009
O gosto da memória

Este ano, mais uma vez, fui passar a Semana Santa em Maceió. É um dos meus poucos luxos com que gosto de fazer inveja aos amigos. Atitude, reconheço, bem pouco condizente com o espírito de humildade cristã que deve reger esta época do ano. Mas vaidade é vaidade. Vamos lá. Comi e bebi como um cônsul romano, entre curtos intervalos imerso numa piscina de água quase morna.
Sempre se comeu bem na casa desses meus primos, desde o tempo em que minha Tia Carminha tomava conta da cozinha. Mas é de um tempo anterior a este que me vem a lembrança da melhor refeição da minha vida. Tia Carminha morava numa casa parede-meia, na beira da linha, no bairro de Jaraguá. Casa pequena, mas com um quintal generoso, onde uma mangueira deitava fruta e sombra. Era Semana Santa e a proibição da carne era compensada com um siri de coco digno de constar da Santa Ceia. Feijão com farinha, comidos à mão em bolões molhados em um molho de pimenta malagueta feito com o caldo do próprio siri. Tudo isto acompanhado com uma manga espada estourando de amarela, chupada pelo bico, como um seio. Esta foi a comida mais gostosa de toda a minha vida. Sem vinho, sem chocolate, sem coelhos em volta. Só os olhos e as mãos milagrosas da minha tia.
07 Abril 2009
Derivas
Os judeus celebram a Páscoa em memória da libertação da escravidão no Egito. Os cristãos comemoram a passagem para o novo tempo que a ressurreição do cristo anuncia. Liberdade, renovação. Que sentido fazem estas palavras fora do seu contexto estritamente religioso e litúrgico? 26 Março 2009
Roupa íntima

André havia se mudado para aquele apartamento há menos de uma semana. Era a primeira noite de sexta-feira que passava na nova casa. Por isso, a primeira coisa que quis fazer quando chegou do trabalho foi tomar um longo banho. Depois ia bebericar um uísque e pensar com quem fazer a inauguração. Uma namorada ou um punhado de amigos mais chegados que não reparassem na desarrumação.
Entrou no banheiro e sorriu com o hábito de fechar a porta. Lembrou-se que Antônio Maria dizia que a única vantagem de morar só é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta. Mas a água já escorria morna. A porta aberta ficava para a próxima vez.
André ainda esfregava a cara com a toalha quando viu um sutiã pendurado na maçaneta da porta. Bem que podia ser de uma de suas namoradas, quis pensar, mas logo se lembrou que nenhuma delas ainda estivera ali. Só podia ser da antiga inquilina.
Por um súbito e inexplicável pudor, André não tocou no sutiã. Não era direito pegar numa coisa tão íntima de uma pessoa que não conhecia. A toalha já enrolada na cintura, sentou-se na bacia sanitária e ficou estudando a peça pacientemente. De aparência um pouco desgastada, parecia reservado ao uso doméstico ou em saídas rápidas sob uma camisa de meia. Os bojos eram de tamanho mediano, mas o elástico desgastado sugeria um excesso de volume a ser sustentado. Seios ligeiramente fartos, concluiu André. E imaginou a totalidade do busto que ali se ajustaria.
Concluída a construção da parte superior, passou a deduzir o restante do corpo que habitara o seu banheiro. Simetria entre busto e quadris era coisa de miss dos anos sessenta. André preferia ver as ancas um pouquinho mais estreitas que o perímetro superior, mas fartas o suficiente para delinear uma curva descendente em direção ao ventre, estando a dona lendo um livro deitada de lado, uma das mãos apoiando a cabeça.
A cabeça. Eis um enigma enorme para André. Um corpo assim exigia cabelos longos. Longos e negros. Mas a mulher não podia ficar assim, só cabelos. Precisava de um rosto com olhos para ler o livro. Teria óculos, como toda mulher que lê na cama. E uma boca com lábios carnudos para balbuciar uma frase aqui e ali. E precisava de mãos delicadas para segurar o livro e passar as páginas. Faltavam ainda coxas, pernas e pés para que a dona se mexesse a cada passagem mais excitante da leitura.
André se vestiu apressado e deixou o quarto sem fazer barulho para não atrapalhar a leitura da mulher. Foi para a sala, preparou seu uísque, mas não telefonou para ninguém. Bebericou a dose e ali mesmo, no sofá, caiu no sono.
Quando André acordou na manhã do sábado, a luz do quarto ainda estava acesa. Escutou virar uma página de livro. Viu que não tinha nada para o café a manhã. Calçou as sandálias, levantou-se sonolento e falou alto em direção ao quarto: vou ali na padaria comprar alguma coisa. Volto já.
23 Março 2009
Aeromoça
A moça queria um bem.Queria um bem querer
para esperar, suspirar,
Um bem para maldizer.
Um bem para querer bem.
Bem bom de telefonar,
torpedear, orkutar,
de emessieneamar.
A moça queria um bem
que a fizesse tremer,
que a fizesse gelar,
que a fizesse morrer.
Foto: Ana Patrícia
Imagem obtida em http://www.flickr.com/photos/anap
17 Março 2009
Crime contra a humanidade

Ainda no avião que o levaria, hoje, à sua primeira viagem à África, o papa Bento XVI declarou aos jornalistas que a distribuição de camisinhas apenas agravaria o problema da Aids no continente. O papa bate de novo na velha tecla da abstinência como prevenção à contaminação. Ora, se abstinência fosse remédio para alguma coisa, os problemas da igreja com o crimes de pedofilia de seus padres estaria resolvido. A atitude do papa e de seus seguidores é de um cinismo palmar. A Africa Subsariana, embora represente apenas 10% da população mundial, comporta 64% de soroppositivos. Noventa por cento desse total é composto de crianças com menos de 15 anos de idade. Querer impedir que medidas profiláticas sejam aplicadas a essas pessoas, por razões irracionais como as alegadas pela igreja católica, qualifica-se claramente como um crime contra a humanidade.
15 Março 2009
Pele e osso

Já de tarde, Glória volta da rua com um caderno promocional de uma loja de roupas. Fiquei escandalizado com a escassez de carne das modelos. E não é somente a ossada à flor da pele que me impressiona. A maquiagem, o olhar e a postura das moças, ajudadas pela ambientação das fotos, sugerem uma lânguida lassidez que deve exercer uma atração mórbida nas meninas que voltavam da escola.
Terapeutas e psicanalistas andam preocupados com a incidência de casos de anorexia e bulimia em seus consultórios. Tem muita gente boa tentando compreender a epidemia de pele e osso que assola as mulheres em todos os cantos do mundo ocidental.
É certo que o problema não é novo. Quando eu era menino, uma vizinha rechonchuda morreu de tanto tomar vinagre para emagrecer. O que está acontecendo é uma valorização social da esqualidez por parte da mídia, o que leva as adolescentes a aderir ao modelo como a um modismo qualquer, sem medir as conseqüências irremediáveis para a sua saúde.
Ana e Mia (como são carinhosamente chamadas a anorexia e a bulimia pelas suas adictas) põem a descoberto uma grave síndrome da contemporaneidade. Por não ter o que revelar do seu mundo interior, as pacientes exibem o que sustenta o interior do seu corpo. O esqueleto à mostra revela, enfim, o ideal estético da desumanidade. Sem a sujeira das tripas, sem a volúpia das carnes. Só a pele, os ossos e o nada.
11 Março 2009
Vai acabar em inglês
Não sou muito dado a premonições, mas acho a norma vai acabar contribuindo com o já avançado processo de americanização da língua brasileira. Não vai demorar muito para a moçada começar a ler palavras como “deem”, “leem” e “veem” como “dim”, lim” e “vim”. Da mesma forma, “enjoo” e “vôo” vão acabar sendo lidas como “enju” e “vu”.
Eu e o meu corretor ortográfico somos contra.
07 Março 2009
Enigmas da noite
Imagem obtida em :
28 Fevereiro 2009
Morte e inferno

O padre Luiz Couto está condenado ao inferno. Seu pecado foi ter defendido o fim do celibato e o uso da camisinha, numa entrevista ao programa “Congresso em Foco”. Por isso, está proibido de celebrar missas pelo arcebispo da capital da Paraíba. O padre Luiz Couto sempre esteve ao lado dos oprimidos e injustiçados. Suas idéias sempre contrariaram o bando mais conservador da igreja católica, que tem no atual arcebispo um de seus mais ferrenhos representantes. Nada mais natural, portanto que seja condenado à excomunhão e o conseqüente fogo do inferno.
O deputado Luiz Couto e o padre Luiz Couto não são duas pessoas distintas. Quem conhece o discurso e a prática do padre, sabe o que pode esperar do parlamentar. E vice-versa. Mas não são apenas os oprimidos e injustiçados que conhecem a coragem deste homem íntegro que se chama Luiz Couto. As forças retrógradas do coronelismo, laico ou clerical, também a conhecem. Por isso o querem morto e condenado ao inferno. Mas nós, que nos sentimos representados pelo parlamentar e incitados pelo religioso, queremos Luiz Couto vivo. E nada precisamos desejar aos seus inimigos. Estes já estão condenados pela história à morte política e ao inferno moral.
Ilustração:
William Blake - Dante's Inferno, Whirlwind of Lovers.
Obtida em www.nimbi.com
25 Fevereiro 2009
Trema
21 Fevereiro 2009
Senhores e escravos

É com este mesmo tipo de pensamento que as pessoas jogam suas latinhas de cerveja pela janela do carro, pontas de cigarro acesas ao largo das estradas, potes usados de iogurte pelas janelas dos apartamentos e deixam montanhas de lixo nos parques e nas praias.
Passei muito tempo tentando entender como um adolescente pobre e mestiço chega a reproduzir uma ideologia típica de uma classe antagônica à sua, pois são justamente os trabalhadores pobres e mestiços que limpam a sujeira que uma minoria abastada espalha pelo mundo desde tempos imemoriais.
Entre os que sujam e os que limpam, ele já escolheu o seu lugar. Ficando do lado dos que sujam, ele pode se imaginar rico, poderoso, sem qualquer obrigação de prestar contas a ninguém dos seus atos de vandalismo. É isto o que ele quer ser quando crescer. É isso o que ele já pensa que é, em sua pouca idade. O que ele não sabe, é que não tem lugar para ele no lado dos que sujam. Todas as vagas já estão garantidas para os filhos dos sujões de hoje. Queira ou não, o seu lugar já está reservado no lado dos que limpam. E não apenas limpam, mas que trabalham no subterrâneo para fabricar, transportar e vender os produtos com os quais os outros sujarão a superfície do mundo.
Na versão pós-moderna da dialética do senhor e do escravo, não há lugar para a esperança de que o escravo tome consciência do valor do seu trabalho. Consequentemente, o senhor também não se libertará da sua estagnação que se daria ao acompanhar a tomada de consciência do escravo.
Ambos, escravo e senhor, estão soldados em um projeto de sujar e exaurir o mundo. O que nos torna a todos, enfim, servos de um sistema louco de autodestruição.
15 Fevereiro 2009
Aquarius

Imagem obtida em: LIFE
O garanhão sem memória

São umas insensatas. Escrevem para mim sem se importar se minha mulher ou minhas filhas têm acesso à minha correspondência. Falam abertamente de coisas que fizemos juntos das quais se dizem saudosas e ardentes de desejo em repeti-las. E para que não reste dúvida quanto às minhas proezas, todas elas mandam fotos comprometedoras que me nego a ver. Vejam o que me diz uma certa Lu:
“Oi, eu falei que ia tirar umas fotos especiais pra vc.. separei essas ai so pra vc, o resto está no anexo. depois manda um email dizendo o que achou tá bebê ! Agradeço desde já por tudo que aprendi contigo =* Beijosss...”
Claro que há uma certa contradição em me chamar de bebê e ao mesmo tempo agradecer pelo aprendizado. Mas pela grafia do Beijosss, acho que trabalhei muito bem.
Queixosa, Vera implora por uma migalha da minha atenção:
“olla!! Por que você faz isso comigo? Passou por mim ontem e fingiu que nem me viu... será que poderíamos conversar um pouco? Não sei se você lembra dessa foto que tiramos juntos. Espero que goste um pouco de mim, nem que seja pela nossa amizade. Beijos, te adoro muito. !! Bejos!”
Lacônica, Vick faz um mea culpa mas não esquece a fatídica fotografia:
“Oiiii...!! tudo bem? Pois é eu sumi... mas eu não esqueci daquela nossa foto. Você lembra né?! Pois aqui está a foto que você tanto queria...Abraços!!!”
De riso frouxo, Tamira é das mais perigosas, pois não conhece só a mim. Fico pensando quem são esses “todos”:
"Acabei mandando a foto kkkkkkkkkkk... Mais ver se manda uma tbm viu??? Ficou show D+, manda um abraço ai pra todos, e não esquece de mandar uma tua! ;) Se não tiver gostado muito, manda um recado que te mando outra!"
Por fim, Rafinha revela não possuir apenas uma foto, mas um álbum completo com as coisas que fizemos juntos. E o que é pior, sugere que eu mesmo tenho uma coleção semelhante que, juro, não sei onde possa ter guardado:
“Oieeee, quanto tempo heim... nada de me responder.. porquê?!
Olha oque o pessoal fez com as fotos da gente... ficou muito legal :)
Achei a maior graça... Porque você nao faz um destes?
Eu adoreiiii!!!Abraços, e uma ótima semana!”
Pelo nível do português, vocês devem estar imaginando os lugares em que procuro companhia para minhas horas de tédio. Pois aí é que está o mistério. Toda essa fama, todo esse desempenho, toda esta documentação, e não sou capaz de me lembrar de nada do que ando fazendo com essas moças. Definitivamente, preciso deixar de beber.
08 Fevereiro 2009
Um dia, um homem...
sado. Minha mãe sustentava a casa dando aulas de inglês. Meu pai passava as manhãs dormindo, acordava para o almoço e saía no meio da tarde. Voltava de madrugada, de olhos vermelhos e um sorriso perdido na cara. Minha mãe dormia sentada na cadeira de balanço, comigo no colo. Mais tarde me contou. Não esperava meu pai. Um dia, sonhava, um homem entraria pela porta e a levaria para uma casa bonita, com um jardim florido, numa rua com árvores e um carro na porta.
a de taipa no fim da rua da Lama. Minha avó passava as noites acordadas olhando a porta. Mais tarde, contou pra minha mãe. Não esperava meu avô. Um dia, sonhava, um homem bonito viria e sairiam pelas ruas de mãos dadas, primeiro para o cinema, depois tomar sorvete, depois namorar na praia, depois morrer de amor.
o bairro da Boa Vista. Estavam justamente lá, num fim de tarde friorenta de julho, quando um homem desesperado gritou “João Pessoa” e atirou. Um tiro foi o que bastou para lembrar todo o sofrimento nas marchas da Coluna. Meu bisavô saiu correndo e foi preso como cúmplice do assassino. Minha bisavó voltou para a Paraíba com os filhos e desde então deixou de dormir. Passava as noites vigiando os passos na rua. Mas não esperava o marido. Ela mesma contou para minha avó. Um dia, sonhava, um homem de sorte bateria em sua porta com um buquê de flores e um anel de brilhantes. Tomariam um navio e viveriam felizes em Paris.A mãe de minha bisavó foi roubada de casa por um fazendeiro. Quando ele perguntou se ela queria fugir, não disse que sim nem não. Mas deixou a janela do quarto aberta. Qualquer coisa seria melhor do que aquela vida miserável de trabalhar no eito. Foi morar numa casa grande, quase uma tapera. O pai do seu marido tinha sido rico, dono de escravos e muitos pés de algodão.Mas veio a Lei Áurea, veio a república, veio a praga que acabou com o algodoal. Agora seu marido ficava ali, sentado na espreguiçadeira, fazendo contas de quanto estaria colh
endo se ainda estivesse plantando. A mulher ficava sentada nos batentes da entrada, olhando os rachões da terra até que os olhos ardessem com tanta luz. Aí então, os fechava para sonhar que um dia, um homem vestido de couro viria buscá-la em seu cavalo. E sairiam a galope até um lugar coberto de grama verde, cortado por um riacho perene, onde se amariam rodeados de bois e passarinhos. Ronaldo Monte
Clube do Conto, 07 de fevereiro de 2009.
zig.blogs.sapo.pt (homem com flores)
br.geocities.com (casa com jardim)
redeparede.com.br (mãos dadas)
06 Fevereiro 2009
Eu avisei
Em entrevista exclusiva à BBC, presidente sugere que proposta dos EUA fere regras da OMC.
UE e Canadá criticam protecionismo em pacote de Obama
Cláusula de preferência por produtos americanos causa apreensão internacional.
É só olhar a quarta postagem abaixo.
01 Fevereiro 2009
Passageiros

Somos todos passageiros. Um dia, todos passaremos. E conosco passarão todo o júbilo e todo sofrimento, todo o amor e toda ira que julgávamos eternos. Sejamos, pois, pacientes. Mergulhados no rio do tempo, deixemos que ele nos lave de toda pretensão de eternidade.
Somos todos passageiros. E sabemos que a qualquer momento a nossa viagem pode chegar ao fim. Por isto somos melancólicos, sofrendo por antecipação uma perda que sabemos inevitável. Toda separação é dolorosa. Todo desaparecimento é temível. Por isto erguemos monumentos. Por isto tiramos fotos, por isto criamos na memória uma história sem mácula, em que somos todos bons.






